quarta-feira, 6 de agosto de 2008

"CARACA! Como foi que ele fez isso?"

Ok!
Pré-Olimpíada... melhor encher agora a bola de quem chega como astro em Pequim do que aguardar o resultado final e dai ter que escrever algo assim enquanto a mídia brada na mais alta voz a DECEPÇÃO [!?!?] que foi o cara! (Coitado de quem eu vou falar agora se voltar de novo "só" com 6 ouros pra casa - os 8 é o mínimo que tão exigindo pra ter o passe-livre na volta)

Mas antes de qualquer coisa, é preciso firmar alguns conceitos sobre como qualificar alguém como "O CARA".

Eu costumo dividir os esportes em dois grupos: de um lado, os do improviso. Do outro lado, os científicos.

Explico: há esportes que você sabe exatamente o que vai ver. Talvez você não, mas o atleta e o técnico dele sabem. Inclusive o resultado é uma previsão quase certa. Só falha se acontecer algo realmente fora do previsto (desde de uma escorregada até uma dor de barriga). É o caso, por exemplo, do atletismo e da ginástica olimpica.

Do outro lado, estão os esportes de improviso. Aqueles em que através de um lance, uma jogada, pode realmente se fugir do padrão esperado. Para caracterizar o talento, conta também a criatividade... o famoso "se vira nos 30". Há possibilidade de se produzir uma imagem nova. O resultado deixa de ser tão previsível. É assim com o Tennis, com o Basquete...

(E nisso o Futebol transcede um pouco o que se entende por esporte... já que além de tudo isso, é o único esporte onde há uma possibilidade realmente considerável do melhor não vencer... é isso não será mera obra do acaso.)

Acompanhar o segundo grupo, ao que parece, é sempre algo emocionante. O esporte deixa de ser frio e de meramente importar o resultado... o contexto em que o resultado é formado muitas vezes deixa este em segundo plano, já que é possível acontecer nuances que dão "algo mais" pra aquilo tudo.

Ou vai dizer que uma rebatida sen-sa-si-o-nal como essa não paga por si o ingresso?
E uma estourada de tabela? Alguém vendo isso, se importa na hora qual foi o resultado?
Um "simples" drible não marca mais do que o placar do jogo?

Pois então... a coisa mais legal é você estar vendo um jogo ou prova... e de repente levantar e soltar um "CARACA!!!! COMO QUE ELE FEZ ISSO???". Sem dúvida um momento desses, na maioria das vezes, vale até mais do que a satisfação de um resultado favorável para aquele que você torcia.

E é aí que entra o Michael Phelps...

Natação é um esporte símbolo daquele 1º grupo. Você olhando a escalação de uma final, sabe-se de antemão onde cada um pode chegar. Sabe também de antemão, a técnica que cada um vai utilizar. Sabe de antemão, como vai se desenvolver a prova. Enfim, você sabe o que vai ver...

Quando isso não acontece, é muito mais por uma falha do nadador em questão do que por uma virtude de outro. Há um nível na natação competitiva, em que surpresas não mais acontecem. Não é por outra razão que VER competição de natação chega a ser chato e massante... às vezes até mesmo para quem é "do meio".

Só que dai aparece um fenômemo...

Tá... eu O-D-E-I-O essa história de fenômeno. Pra mim, baixar um tempo de uma prova em natação hoje em dia é sim uma questão de mistura fatores genéticos (biotipo), treinamento, dedicação, uma certa dose de talento e utilização de toda a tecnologia que fez evoluir o esporte, desde o treinamento, passando pela alimentação, até o próprio equipamento de competição.

Tempos são baixados... e continuarão sendo baixados pela evolução natural do esporte. Não por "fenômenos".

Mas o Phelps pode ser considerado um fenômeno não pelos tempos (claro que pros padrões, tais tempos são fenomenais sim - e fora isso, eu tenho pelo menos mais uns 3 motivos para considerar o Phelps o melhor nadador de todos os tempos), mas sim pela capacidade de fazer quem tá assistindo se emocionar.

É sério... natação é aquele esporte em que só tem sentido você assistir uma prova para ver seu final. Importa ver quem vai bater na frente e qual tempo ele marcou, o resto da prova é simplesmente o resto.
Quer dizer.... até acontecer o tal "nuance" que faz você levantar e soltar o tal "CARACA!!!! C........".

Vamos lá:

Ator: Michael Phelps
Contexto: Mundial de natação de Melbourne/2007
Prova: Final dos 400m medley



Descrição:

400m medley é uma das provas mais difícies da natação. Abre com o estilo mais pesado de se nadar, que é o Borboleta. E depois de 100m, tem mais 2 piscinas olimpicas de Costas e mais 2 de peito. Só quem já nadou, sabe o que é se fazer uma "filipina" (aquele movimento submerso) na virada do Estilo Peito numa prova dessas. É geralmente gastar o resto de folêgo - incluindo o oxigênio que está segurando os músculos - que se tem. Os últimos 100m de crawl, é muito mais raça do que técnica.

E ai que é que está a diferença de um nadador de ponta (geralmente expcional nadador), para o que aquele que se imagina ser um extraterrestre.
Primeiro, porque o extrarrestre mostra que ele não é desse planeta logo na hora em que sai da água na virada do peito para o crawl. A diferença aberta para o 2º colocado nesse movimento é absurda.
Segundo que o extrarrestre não só confirma a tese, como deixa claro que ele provavelmente veio de Cripton e deve ser irmão do Superman - na última virada da prova... a dos 350m!

É justamente essa a hora do "CARACA!!!! O QUE É ISSO MEU DEUS???"
Ninguém... repito: N - I - N - G - U - É - M pode ser capaz de nadar 350m pra baixo do próprio recorde mundial... chegar na última virada e:
5 SEGUNDOS SUBMERSOS
7 GOLFADAS SUBMERSAS
12 METROS PERCORRIDOS ATÉ EMERGIR!!!
Pois é... ninguém desse planeta...
Porque do Planeta que veio o Phelps, já ficou provado que há.

Foi mesmo de escorrer lágrimas, assim como tão bem descreveu o comentarista do sportv na hora da prova... Ou então exclamar um "SUPERMAN", como fez o narrador americano em outra versão do vídeo que já vi no youtube. Só de escutar o povo no ginásio da piscina gritando (seria um CARACA?) [?] já é de arrepiar!

Depois desse momento... ter saído um corpo a frente da linha do próprio recorde mundial foi mero detalhe! Ficou a imagem, ficou o momento... o resto foi mera consequencia!

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